Falsa certeza nº 7
“O pessoal da TI resolve tudo e pensa em tudo.”

Superpoder por procuração: o que essa certeza esconde e a evidência que você deveria exigir

Em uma frase

Quando uma única pessoa resolve tudo e pensa em tudo na TI, a empresa não tem controle; tem dependência. O gestor sente que controla porque as respostas sempre chegam, mas elas moram na memória de alguém que pode sair de férias, adoecer ou pedir demissão. A solução não é trocar a pessoa, é tirar o conhecimento da cabeça dela e colocar em processo documentado que sobreviva à sua ausência.

Essa certeza é diferente das outras, porque não é sobre tecnologia. É sobre uma pessoa.

Em quase toda empresa de médio porte existe alguém assim: o analista que resolve tudo, que sabe onde está cada senha, que lembra por que aquele servidor tem aquela configuração estranha e que atende o telefone às onze da noite. O gestor, na reunião, parece ter superpoderes. Pergunta qualquer coisa de TI, a resposta chega em cinco minutos. A sensação é de controle total.

Eu chamo isso de superpoder por procuração. O poder existe, mas não é do gestor. É emprestado, e mora na cabeça de uma pessoa só.

Antes de continuar: isso não é crítica ao analista

Vale dizer com clareza, porque o texto pode ser lido do jeito errado. O profissional que segura tudo é, quase sempre, o melhor da equipe. Ele está fazendo exatamente o que a empresa pediu, e fazendo bem. A crítica não é a ele. É ao modelo que transformou uma pessoa competente num ponto único de falha, e que vai culpá-la no dia em que o modelo quebrar.

Por que o risco cresce sem ninguém perceber

Quanto melhor a pessoa, menos a empresa sente falta de processo. Documentação parece burocracia quando tudo funciona. Chamado formal parece lentidão quando basta passar na mesa. E assim o conhecimento vai se acumulando num lugar que não faz backup: a memória de alguém.

Depois vêm as férias que nunca são de verdade, porque o celular toca. A promoção que não acontece, porque não dá para tirar a pessoa dali. E eventualmente a saída, que leva junto anos de contexto que ninguém sabia que existia.

O teste do gerador

O gerador tem manual, placa com instruções e mais de uma pessoa treinada para acioná-lo, porque ninguém aceita que o prédio dependa de um único funcionário saber onde fica o botão. A TI da empresa merece o mesmo critério. Não porque o analista seja substituível, mas porque a operação não pode depender de ninguém ser insubstituível.

O que isso tem a ver com TI terceirizada

Tudo. Se dentro do fornecedor existe um técnico que é o único que conhece o seu ambiente, a dependência não acabou, só mudou de CNPJ. A pergunta é a mesma: se ele sair, o que o fornecedor sabe sobre a minha empresa? Fornecedor maduro responde com documentação. Fornecedor imaturo responde com o nome do técnico.

A evidência que você deveria exigir

Uma pergunta e um teste. A pergunta: se essa pessoa sair de férias por 30 dias sem celular, o que para? O teste: dê as férias. De verdade. O que acontecer nesses 30 dias é o diagnóstico mais honesto que a empresa vai ter sobre o próprio processo, e o melhor presente que ela pode dar ao profissional que segura tudo.

A pergunta que desmonta

Se essa pessoa sair de férias por 30 dias sem celular, o que para?

Faça essa pergunta na próxima reunião. A resposta vem com data e número, ou vem com adjetivo.

O que pedir na próxima reunião

Quatro evidências. Não é desconfiança: é o mesmo critério que você já aplica ao gerador de energia.

  • Documentação de acessos, senhas e procedimentos críticos num lugar que outra pessoa consegue abrir e entender
  • Lista do que só uma pessoa sabe fazer, com plano para cada item
  • Férias de verdade do responsável, sem chamadas, e o registro do que aconteceu nesse período
  • Processo de abertura, registro e encerramento de chamados que não dependa de conversa de corredor
“Quando a resposta mora numa pessoa, a empresa tem um ponto único de falha com crachá.”
— Dorian Cosentino, série Falsas Certezas da TI

Perguntas frequentes

Depender de um bom analista de TI é um problema?

Depender de uma pessoa é o problema; ter uma pessoa boa é uma sorte. O analista que resolve tudo costuma ser o melhor profissional da casa, e é exatamente por isso que o risco cresce sem ninguém notar: quanto melhor ele é, menos a empresa sente falta de processo, até o dia em que ele não está.

Como reduzir a dependência sem desvalorizar a equipe de TI?

Tratando a documentação como parte do trabalho, não como burocracia. O objetivo é que o conhecimento da pessoa vire ativo da empresa e que ela possa tirar férias, ser promovida ou sair sem levar a operação junto. Isso protege a empresa e protege o profissional, que deixa de ser o único a receber ligação de madrugada.

Isso vale também para TI terceirizada?

Vale igual. Se dentro do fornecedor existe um técnico que é o único que conhece o seu ambiente, a dependência só mudou de CNPJ. A pergunta a fazer é a mesma: se esse técnico sair, o que o fornecedor sabe sobre a minha empresa?

Para ir mais fundo

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