Monitoramento só existe quando se pode responder quatro perguntas por equipamento: o que é medido, qual o limiar que gera alerta, quem recebe o alerta e em quanto tempo. Um painel verde mostrando que os servidores respondem a ping prova apenas que eles estão ligados, o que é diferente de saber se o disco vai encher amanhã ou se o link está saturado agora.
Essa certeza eu conheço de perto, porque monitoramento é parte do que eu faço há muitos anos. E é justamente por isso que sei o que acontece quando o gestor diz “está tudo monitorado” e pede para alguém mostrar: aparece um painel com bolinhas verdes. Servidor responde, link responde, switch responde.
Aquilo é ping. Ping é sinal de vida. Não é monitoramento.
O que o painel verde não vê
O servidor responde a ping com o disco a 98%. Responde com o serviço do ERP parado. Responde com a fila de e-mail travada há duas horas. Responde com o link principal saturado e todo mundo reclamando de lentidão. Em todos esses casos, a bolinha continua verde e o telefone do gestor toca antes do alerta, porque alerta não existe.
Monitorar é medir o que acontece dentro do equipamento, não se ele está ligado.
As quatro perguntas que definem monitoramento
Para cada equipamento, a empresa deveria conseguir responder:
- O que é medido? Não “o servidor”, mas disco, memória, serviços, temperatura, banda, erros de porta.
- Qual o limiar? A partir de quanto o alerta dispara.
- Quem é avisado, e por onde? E o que acontece se essa pessoa não responder.
- Esse alerta é preventivo, preditivo ou corretivo? Avisa antes, projeta quando, ou avisa depois que parou?
Quem responde as quatro tem monitoramento. Quem responde só a primeira tem um painel.
O teste do gerador
O painel do gerador não mostra só “ligado”. Mostra nível de combustível, temperatura, horas de operação e a data do próximo teste, porque quem instalou sabia que o gerador falha por combustível e bateria, não por estar desligado. O mesmo raciocínio vale para a infraestrutura: os incidentes acontecem por disco, memória, serviço e saturação. Monitorar só o ping é monitorar a única coisa que raramente falha.
A evidência que você deveria exigir
Não peça acesso ao painel. Peça três documentos: o inventário do que é monitorado por equipamento, a política de alerta com limiares e responsáveis, e o relatório do último mês com os alertas que dispararam e o tempo de resposta. E faça a pergunta que fecha o assunto: quantos incidentes aconteceram no último trimestre sem nenhum alerta antes? Esse número diz se o monitoramento está trabalhando para a empresa ou decorando uma tela.
O que exatamente é monitorado em cada equipamento, com que limiar, e quem é avisado em quanto tempo?
Faça essa pergunta na próxima reunião. A resposta vem com data e número, ou vem com adjetivo.
O que pedir na próxima reunião
Quatro evidências. Não é desconfiança: é o mesmo critério que você já aplica ao gerador de energia.
- Inventário do que é monitorado por equipamento: não o nome do servidor, mas as métricas (disco, memória, serviço, fila de e-mail, temperatura, banda, erros na porta do switch)
- Limiares e política de alerta: a partir de quanto avisa, para quem, por qual canal, e o que acontece se ninguém responder
- Classificação de cada alerta: preventivo (avisa antes), preditivo (projeta quando vai acontecer) ou corretivo (avisa depois que parou)
- Relatório mensal com os alertas que dispararam, o tempo de resposta e os incidentes que o monitoramento não pegou
“Ping não é monitoramento. É sinal de vida.”
Perguntas frequentes
Qual a diferença entre ping e monitoramento?
Ping verifica se o equipamento responde na rede: ligado ou desligado. Monitoramento mede o que acontece dentro dele: espaço em disco, consumo de memória, serviços que pararam, fila de e-mail, uso de banda, erros de porta. A maioria dos incidentes acontece com o equipamento respondendo a ping normalmente.
O que é monitoramento preventivo, preditivo e corretivo?
Corretivo avisa que algo parou. Preventivo avisa que algo vai parar se nada for feito, como um disco a 90%. Preditivo projeta quando vai acontecer com base na tendência, como 'o disco enche em 11 dias'. Um ambiente maduro tem os três e sabe dizer qual alerta é qual.
Como cobrar o monitoramento do fornecedor de TI?
Peça o inventário do que é monitorado por equipamento, a política de alerta e o relatório do último mês com tempos de resposta. Depois peça a lista de incidentes que aconteceram sem alerta prévio. Esse último número é o que mede se o monitoramento está servindo para alguma coisa.
Para ir mais fundo
Quer essa conversa na sua empresa ou no seu evento?
As sete falsas certezas viram uma palestra de 20 minutos para diretoria, associação ou evento de tecnologia.
Ver temas de palestra →